
Amanheci de cabeça pra baixo. Comi mateiga pelo avesso. Cumprimentei o cego na esquina, conversei fazendo falsas promessas. E aí me pergunto, pra quê?
Pintei o céu de vermelho, avistei o eclipse da nuvem. Depois corri com o dedão para fora, praguejei imensos desejos, comi pastel estragado. E aí me pegunto, pra quê?
Abracei a sina do carrasco, vi num espelho trinta e poucos anos, enfrentei o vento na nuca, andei no centro da rua, fiquei na sombra tomando sorvete, avistei o homem nu. E aí me pergunto, pra quê?
Vi nomes de blasfêmias, vi o Apocalise em prisma, atrapalhei o tempo do meu topete, vesti a camisa vermelha de forma esqusita. E aí me pergunto, pra quê?
Atrapalhei o trânsito sem direção, andei de guarda chuva no escuro, peguei uma jaca tipo melancia, dormi de barriga pra dentro, vi a menina no portão, chamei-a pelo nome. E aí me pergunto, pra quê?
Diluí Neosaldina e afeto, escrevi com Bic escrita fina bem traçadas linhas, tomei bicabornato na veia, sentei no buraco do vaso, dei ré na marcha da vida, estrangulei o moço da feira. E aí me pergunto, pra quê?
Li seus acasos na mão, não tive vergonha do passo e da queda, puxei sob o grito o desejo da noite, vi o clarão da alvorada, vi a torre em chamas, não paguei por nenhum sórdido pecado. E aí me pergunto, pra quê?
Pra quê? Pra quê? Pra quê? Pra quê? Pra quê? Disse-me, repetiu o corvo, em alvas penas nunca mais!
Então, pintei um arco íris em preto e branco, frias cores, incolor, quis evitar seu tom, mas ainda lhe chamo de amor, e aí me pergunto, te esquecer? Pra quê? Quantas vezes, pra quê?

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